quinta-feira, outubro 25, 2007

A partir de aqui surgirão as aventuras e desventuras no mundo do trabalho na oncologia...
Não serão exlusivamente momentos tristes pois o que mais me cativa nestes doentes é a imagem que constroém em torno da vida e o assumirem as relações com as pessoas como a sua real vivência dos dias!

O desatino da felicidade...

Alguma vez se sentiram completamente perdidos de felicidade? Pois isto aconteceu-me quando soube que tinha emprego! Depois de 2 meses a correr Lisboa pelas pontas, a entregar curriculos em todo e mais algum sítio... depois de me perder mil e uma vezes pelas ruas desta cidade misteriosa, depois de ouvir mil e um não, depois de ouvir muitas mentiras e fraudes, depois de ouvir um não nesta entrevista de trabalho e de ser entrevistada duas vezes com perguntas mirabulantes onde só faltava perguntar a que horas é que eu costumo ir à casa de banho (não vá isso atrapalhar a rentabilidade do serviço), CONSEGUI! Pois é, cá estou eu a trabalhar na área que eu mais queria, a desenvolver um projecto que defendi nos últimos anos e com uma equipa de enfermeiras que partilham as mesmas orientações do meu espírito crítico! O que se quer mais? Talvez maior rapidez de actuação, mas isso vem com o tempo, porque por agora ainda muita coisa me é estranha, muito estranha...
Bom mas falando na sensação de felicidade... quando soube fiquei estupidamente estranha, toda a gente me ligava e eu andava de um lado pro outro no El Corte Inglês, só sei que lá estava porque não me lembro por onde andei, só sei que andei e sorria que nem alguém em fase de mania!
Foi lindo, apetecia-me abraçar ou ter o abraço de alguém mas estava tudo longe de mim, por isso contei a toda a gente e cada pessoa que falava comigo recebia muitas gargalhadas em troca! Uma gargalhada partilhada substitui um bom abraço quando se está longe!

Pedacinhos de vida

Já há muito tempo que aqui não escrevo...
Durante este tempo fui conquistando degraus de uma escada antes secreta, algures escondida entre os meus sonhos e a realidade. Cada degrau que conquistei nestes últimos meses foi fruto de muitas lutas comigo própria e por fim com aqueles que em mim acreditavam e desacreditavam. Posso-vos dizer que cada pé que pus nesta escadas era mergulhado num mar de alegria e realização (Porra como é bom!). Por aqui vou continuando a lutar pelos meus sonhos, porque, sim, eles podem concretizar-se com o esplendor de uma brilhante conquista. A todos os que me deram a mão e aturaram as minhas loucuras e devaneios nestes últimos tempos muito obrigada e preparem-se não vos vou largar porque ainda há mais!

terça-feira, maio 01, 2007

A crueldade da doença

Hoje enquanto caminhava entre corredores de um Hospital acompanhada pelo poder da habituação aquele espaço olhei para ti....
Tu estavas sentada numa cadeira de rodas, não aguentavas o peso da tua cabeça nem a dor da imobilidade do teu lado direito.
Querias viver melhor, querias morrer, lutavas por um estado de ser melhor que o actual.
O teu filho olhava para todos com um olhar assustado: " a minha mãe tem um tumor e ficou assim de um momento para o outro, não consegue estar sentada, mas só consegui arranjar esta cadeira para ela"
Arranjámos-lhe uma maca, o novelo daquele corpo desenrolou-se no leito duro e frio.
Agora tudo depende da autonomia do teu corpo, porque o teu ser só detém a raiva da incapacidade e o doce olhar do amor reconhecido.

Voar

Eu queria ser astronauta
o meu país nao deixou
Depois quis ir jogar á bola
A minha mãe não deixou
Tive vontade de voltar á escola
Mas o avô não deixou
Fechei os olhos e tentei dormir
Aquela dor não deixou

Ó meu anjo da guarda
Faz-me voltar a sonhar
Faz-me ser astronauta e voar

O meu quarto é o meu mundo
O ecrãn é a janela
(...)

Ó meu anjo da guarda
faz-me voltar a sonhar
Faz-me ser astronauta e voar

Acordar meter os pés no chão
Levantar e dar o que tens para dar
Voltar a rir,voltar a andar
Voltar Voltar
Voltarei
Voltarei
Voltarei
Voltarei

segunda-feira, março 05, 2007

A simplicidade de sonhar

saltando de nuvem em nuvem,
um pé primeiro e depois o outro
uma gargalhada estiliza-se como um banco
e dou o saltinho para a outra nuvem.

vou a voar...
colhendo as flores,
contemplando os sorrisos,
reconhecendo os carinhos,
embalada nas brisas que trespassam a alma
e me dizem baixinho"sabes uma coisa? eu gosto de ti"!

o meu olhar vislumbra a luminosidade
e rindo das minhas borbulhas
o sussuro da vida empurra-me para a próxima nuvem...
Queres vir comigo?
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
José Gomes Ferreira

quinta-feira, janeiro 25, 2007

expressões...

olho para ti, olho para o ambiente que te rodeia...não quero estar no teu lugar!
olho para uma fotografia tua, como tudo mudou! o teu olhar não brilha de alegria... brilha, sim quando uma lágrima inicia o seu caminho por esse teu rosto pálido e magoado acabando por sucumbir no lençol que te cobre o corpo. o teu sorriso? vi-te sorrir uma vez... quando a tua alma companheira chegou para te ver!
a tua pessoa, onde está? será que cada tubo que te colocaram retirou de ti o teu ser? não! os olhares é que não te conseguem ver!
hoje tiveste agitado, sentias-te mal, o teu rosto demonstrava mais sofrimento que o costume... cheguei-me perto de ti, tentei tocar-me numa zona que não te causasse dor, tentei dar-te um pouco de carinho... timidamente perguntei-te se estavas com muitas dores... olhaste para mim.. a tua expressão não podia exprimir melhor o que estavas a sentir! pensei em tanta coisa! apetecia-me talvez dar-te um abraço... os meus pensamentos foram interrompidos por uma voz " já biste a medicação?"
sim, já administrei!
mas falta fazer tanta coisa...

segunda-feira, janeiro 22, 2007

nada é imutável...

vou andando no meio da floresta invisivél, entre cheiros, texturas, cores, luz, pessoas, impessoas, são imensas as realidades que me atravessam...

sábado, janeiro 06, 2007

Quando o vento deixa de bater é preciso encontrar em mim mesma outra forma de conviver com o destino.

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita


Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará


Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento


A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto


Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento


E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen